19/04/11

No Alentejo era assim...

 Cumprida que foi a fé, mata-se o borrego, vai-se comer com a família o assado no campo, debaixo dos frescos freixos da ribeira da terra, entre as searas crescidas, ondulantes ao vento. A doçaria da Páscoa faz crescer água na boca. Novos e velhos juntavam-se aos pares e, nas eiras abandonadas, no alto dos moinhos ou nas clareiras dos matos, dançavam ao som de melodias populares.

Muitos eram os dias em que os almoços nas cozinhas das casas cheiravam a açorda de alho com coentros, ovo cozido e azeitonas de conserva.

Nos campos também se viam pastores anavalhando em arte os tarros de cortiça ou talhando em pau de bucho um Cristo, ao mesmo tempo que ia ensaiando algumas décimas.

Parece mentira que no meio de tanta beleza, houvesse um povo a quem a fome e a sede ainda ameaçam.
Quem não se lembra, perto de um pego da ribeira da sua terra ver um vulto de um pastor dormindo a sesta debaixo de uma figueira carregadinha de figos roxos. O som estridente do zumbido das cigarras que vão embalando o sono ao pastor. Um pouco ao lado os cães de gado vão ladrando às perdizes, enquanto as abelhas incansáveis vão carregando o néctar doce das flores para fabricarem o mel.
Os avios para o semana/mes custavam entre 30 a 40 escudos. As mercearias matavam 10 porcos às 2ªs. Feiras, no outro dia já havia pessoas à espera da carne. Muitas vezes queriam levar o chouriço ou linguiça ainda mal curado, com medo que se acabasse.



Era um tempo em que praticamente ninguém tinha televisão, e a que havia muitas vezes pertencia ao taberneiro, ligada a bateria.


As mulheres assistiam às 5ªs. Feiras à tourada do lado de dentro do balcão das mercearias, que também servia de posto de correios e telefone público, enquanto os homens o faziam nas tabernas iluminadas a candeeiro. Tudo isto tinha de ter uma autorização do sargento da guarda.


Era uma vida de miséria e quase ninguém ia à escola. Havia poucos divertimentos, a não ser o Entrudo e as feiras, de resto era só trabalhar.

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