24/10/11

Documento da GNR que relata a morte de Catarina Eufémia no Alentejo

O povo de Baleizão era de “má” índole. E Catarina Eufémia foi vítima do “automatismo” da pistola-metralhadora do tenente João Tomás Carrajola. Por razões meramente técnicas, “sem qualquer interferência do dito oficial”, a arma disparou-se e atingiu a camponesa, que nesse dia 19 de maio de 1954, na herdade do Olival, em Baleizão, desafiava um rancho de ceifeiras a abandonarem o trabalho, em protesto contra os baixos salários. A morte de Catarina deveu-se, pois, a um incidente fortuito, ao excessivo grau de automatismo duma pistola-metralhadora, que não à ação do tenente Carrajola.

Esta versão da morte de Catarina Eufémia, bem como o juízo sobre a população de Baleizão, consta dum relatório elaborado pelo comandante do posto da GNR local, datado de 1 de novembro de 1960. O documento é um dos que figuram no livro 100 Anos – Guarda Nacional Republicana, apresentado no dia 12, em Lisboa. Coordenado por Nuno Andrade, tenente-coronel da GNR e licenciado em História, a obra, editada pela Guerra e Paz, traça a história daquela força militarizada, através de centenas de imagens.

Além da morte de Catarina, que foi, na verdade, causada por disparos voluntários do tenente Carrajola, o relatório agora divulgado descreve outro “caso relacionado com a ordem pública” ocorrido em Baleizão, em 17 de agosto do mesmo ano de 1954. Por ocasião duma visita do ex-comandante do posto da GNR da aldeia, capitão Camilo José Delgado, “grande parte do povo amotinou-se”. Um oficial “tentou convencer os amotinados a dispersarem”, mas estes cercaram e tentaram agredi-lo. Os “desordeiros” debandaram depois duns tiros para o ar, mas a GNR capturou António Fernando Filipe, Agostinho Borrega e António da Silva Caetano, que foram conduzidos à cadeia de Peniche. Perante estas alterações da ordem pública, o chefe do posto de Baleizão só podia concluir que os locais tinham “ideias subversivas bastante avançadas”. AF

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